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Hiroshima, mon amour (Hiroshima, Meu Amor)
de Alain Resnais
França, 1959, Preto e branco, 91 minutos


Amor e guerra, tempo e memória, numa abstracção do realismo e da realidade que alvoroça as linhas da compreensão do espectador.

Penso que dentro de alguns anos, em dez, vinte ou trinta anos, perceberemos que Hiroshima, mon amour foi o filme mais importante desde a guerra, o primeiro filme moderno do cinema sonoro.” —Éric Rohmer

A verdade é apenas referida através da percepção de uma estrangeira de Nevers, França, em Hiroxima. O que por ela é afirmado, num belo e trágico monólogo de abertura, é negado pelo seu amante japonês. Ela conhece Hiroxima, não viveu Hiroxima, como qualquer estrangeiro, como qualquer espectador. Nem as suas circunstâncias esmagadoramente perpétuas na História, da humanidade e do filme, mudam esse facto. A verdade é questionável: Ou ela se altera, ou se desvanece, mas nunca permanece inteira.

O tempo, o passado, o presente e o futuro tornam-se ainda mais oscilantes no filme, são o mesmo. Escapa-se a própria noção de manhã e tarde e noite e madrugada. Estilhaçado por todo o filme, o tempo é abstracto: é a distância entre duas pessoas, é a impossibilidade de um amor nascido da tragédia maciça e violado pela tragédia pessoal.

É a memória da fragilizada estrangeira que reconta o seu passado e se confunde com o sonho, e com a própria História que, quando alicerçada pela memória, jamais será precisa e jamais será segura. Contudo, essa memória é valiosa, é necessário não abandoná-la ou teme-se que esqueça o amante, sem nunca omitir de si a sua tragédia pessoal, como qualquer estrangeiro, como qualquer espectador. Uma desolação individual nunca é olvidada, mas uma desolação massiva facilmente o é, quando não rememorada.

No final, a alegoria:

— Hi-ro-shi-ma. Esse é o teu nome.
— Esse é o meu nome, sim! O teu nome é Nevers. Ne-vers em França.

O real acaba, se é que alguma vez existiu: Os personagens não existem. As figuras são lugares. Os lugares, acontecimentos. Só a memória os manterá vivos. A memória é o filme, Hiroshima, mon amour.

Esquecê-lo é esquecer Hiroxima.