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Tokyo! (Tóquio!)de Michel Gondry, Léos Carax & Bong Joon-hoFrança/Japão/Coreia do Sul/Alemanha, 2008, Cores, 112 minutos
É sob o título Tokyo!, concernente não à cidade mas ao modelo excêntrico que dela é tido fora das suas terras, que se expõem as visões singulares dos seus criativos, não imunes aos seus conceitos, dir-se-ia, ocidentais que possuem.
Com melhor ou pior resultado, directa ou indirectamente, são num todo mais um exemplo da imagem da singularidade de um país, ao fazer um aproveitamento de alguns lugares-comuns que, para mal ou para bem, se confundem com sua própria cultura e se tornam parte dela.
A unidade formal deste tríptico, não se limita porém a empregar Tóquio como mero pano de fundo, sendo aqui tido mais como um outro elemento, um outro personagem, primordial para cada segmento.
Eis então um cartão de visita desta estranha terra, elaborado à vez por três gaijin (não-japoneses) visitantes. Circunstância que, aliás, se verifica aquando dos créditos de abertura, o espectador é apresentado ao filme, antedito por uma voz em off que, com a ajuda de sons e pictogramas que de vez em quando surgem, profere a sensação de estar(-mos) no interior de um avião.
E surgem assim questões, às quais dificilmente obterei resposta: Será a forma como o gaijin vê o Japão coincidente, de facto, com a forma como este se vê a si? Estará deveras um povo tão uniformemente ciente dos seus enigmas quanto alguém que lhe é alheio?E serão os problemas da sua principal metrópole, os mesmos de todo um país?
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Interior Designde Michel Gondry36 minutos

Segmento de abertura, sem pouco a acrescentar, Interior Design descreve a invulgar transformação de Hiroko, uma jovem que, com o seu namorado e aspirante a realizador Akira, se instala temporariamente no claustrofóbico apartamento de uma amiga na capital, enquanto procuram mudar-se para uma nova habitação.
É o ponto de partida para uma jornada de mutação na sua existência, envolta em caricatas situações que pisam solo surrealista e roçam o conceito kawaii, numa cidade que põe à prova resistência e a adaptação do casal.
Algo que é para ele é de fácil domínio, vencendo a cidade, é para ela uma aparente impossibilidade, ao se ver invariáveis em fracassos, consequentes de um fatalismo urbano, por vezes irreparável. Por isso é, Interior Design, das três fracções de Tokyo!, a que mais faz proveito da cidade a fim de determinar o progresso do enredo, tendo em conta que, em suma, é o peso da metrópole que delibera as acções e as razões dos seus habitantes, ou, nesta eventualidade, dos seus personagens. Como questiona o trailer para o filme:

“Do we shape cities?Or do cities shape us?”

Para a jovem, é a cidade que a molda, a mesma que retira quaisquer expectações para uma futura vida, alenta um novo modo de a suportar, sujeitando-a a uma estranha metamorfose: A passagem do animado para o inanimado, do inútil para o imprescindível.
Um modo absurdo de decretar que, como titula o filmezinho de Joaquim Leitão, “a esperança está onde menos se espera”. Testemunho que nem sempre funciona em cinema.
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Merdede Léos Carax38 minutos

O mais anárquico dos segmentos, mas o único capaz de uma transcendência. Poético, selvagem. Assim se apresenta este kaiju eiga, analítico aos tempos que correm, mas escorado em referências do passado.

“Posso dizer que o Merde sou eu. Mas ele cresceu também nestes tempos. Ele diz que não gosta das pessoas mas ama a vida. O que significa isso, e será que é mesmo possível? Eu quero fazer perguntas como estas a esses terroristas, esses fundamentalistas extremistas. Há ódio ali, mas é suposto haver fé e amor e deus, e também há sexualidade porque eles acham que vão foder virgens no céu. É tudo muito infantil. Eu até que compreendo.” —Léos Carax

A homónima personagem é um kaijin de cultura própria, a Criatura dos Esgotos, que submisso ao seu deus, é obrigado a estabelecer-se no subsolo japonês, de onde assomará para disseminar o caos à superfície—num plano-sequência inicial que, ainda que escoltado musicalmente pelo tema principal de Gojira, faz-se escoltado a uma outra pequena acção introdutória: a de Opele, o Mr. Hyde de Jean Renoir, no filme Le testament du Docteur Cordelier—, até ser levado a julgamento.Logo são apontadas comparações à Al-Qaeda e ao Aum Shinrikyo, culto do qual, por ventura, Merde busca bizarras semelhanças físicas ao fundador, Shoko Asahara, de um olho, aparentemente, cego.
Tencionando uma afinidade entre Charlot e um Mr. Hyde sem Dr. Jekyl, este ser, estranho a tudo o que o rodeia, torna a comparação a ambas referências num antónimo, ao falhar um lado humano ao personagem, comutado pelo primitivismo da sua essência. Por outras palavras, tudo em Merde é rude, infantil, e embora inocente, não deixa de ser desumano.
São os seus modos aliados aos seus motivos fundamentalistas que permutam a evolução da sua persona infantil e, até, primitiva, que culmina em todas as suas linguagens corporal, verbal e gestual, onde em auditório, o seu racismo, que entranhado na pele suja deleita igualmente a xenofobia nipónica, é finalmente anunciado. O suficiente para a sua execução: um enforcamento ao gosto japonês, de uma formalidade que remota a Ôshima em Koshikei, 1968.
E sem que este morra, proclama:

— O céu envelheceu.

Possível menção do poeta chinês Li He, pobremente por mim traduzida:

“O céu é sempre o mesmo, o sol nasce pela manhã põe-se à noite, e nunca envelhecerá. Se o céu conhecer o amor e tiver amor, também envelhecerá tal como um ser humano.”

Sucintamente, este ambíguo e intrincado segmento deixa, com as suas imensas referências e vários lugares comuns caracteristicamente japoneses, múltiplas vias de interpretação e apreciação, nunca sendo directo, ainda que sempre frontal. O que se leva deste, é um dos mais belos exemplos de misantropia em película: O ódio é o monstro, e o monstro somos todos nós.
Filme maldito, filme-catarse. Uma obra maior do cinema da passada década, que prova o amor de um poeta pela sua arte, injustamente mal-amada.
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Shanking Tokyode Bong Joon-ho30 minutos

Na terceira e última repartição, o renascimento de um hikikomori, forma especificamente japonesa para o fenómeno da agorafobia. Outro forte apelo à humanidade, ainda que desta vez, falte o cinema e o impacto do segmento anterior.
Ainda assim, há um deslumbramento pela luz, uma quase-contemplação, que induz a doce interpretação da analogia luz-como-vida. Aqui, a luz é, formal e simbolicamente, o próprio mundo exterior aos olhos do protagonista, do qual se insulara, em melancolia, no seu lar durante anos.
Todavia, a barreira que aparta o mundo do seu círculo fechado, é abruptamente quebrada, ao se apaixonar por uma entregadora de pizzas. Alentado a reavê-la, o anónimo personagem enfrenta agora a luz à superfície da esfera onde se refugiara. Luz essa que repudiava, que temia, luz essa que é uma realidade que desconhecia e ignorara, alienado, e que agora reencontra, sacudido pelo amor e um outro elemento, o terramoto. Ambos formam uma sólida comparação de factor catalisador do homem, daí o título.
Numa afável mensagem, tudo vai culminar numa (possível) Tóquio futura onde as máquinas já se confundem com os humanos e os seus papéis são repartidos. Temática diversas vezes explorada, especialmente ligada à desmedida “contribuição” japonesa neste sector, em nome de uma aspirada evolução. E a passos largos caminhamos, efectivamente, para uma evolução, puramente tecnológica, da qual pouco ou nada iremos alguma vez beneficiar, tornando-se mais num agente de regressão à nossa perca condição, que passo a passo nos declina a um maior distanciamento, a uma maior solidão.
É preciso que algo abale a humanidade para que ela se acautele.Talvez o amor resulte, mas não um terramoto.

Tokyo! (Tóquio!)
de Michel Gondry, Léos Carax & Bong Joon-ho
França/Japão/Coreia do Sul/Alemanha, 2008, Cores, 112 minutos


É sob o título Tokyo!, concernente não à cidade mas ao modelo excêntrico que dela é tido fora das suas terras, que se expõem as visões singulares dos seus criativos, não imunes aos seus conceitos, dir-se-ia, ocidentais que possuem.

Com melhor ou pior resultado, directa ou indirectamente, são num todo mais um exemplo da imagem da singularidade de um país, ao fazer um aproveitamento de alguns lugares-comuns que, para mal ou para bem, se confundem com sua própria cultura e se tornam parte dela.

A unidade formal deste tríptico, não se limita porém a empregar Tóquio como mero pano de fundo, sendo aqui tido mais como um outro elemento, um outro personagem, primordial para cada segmento.

Eis então um cartão de visita desta estranha terra, elaborado à vez por três gaijin (não-japoneses) visitantes. Circunstância que, aliás, se verifica aquando dos créditos de abertura, o espectador é apresentado ao filme, antedito por uma voz em off que, com a ajuda de sons e pictogramas que de vez em quando surgem, profere a sensação de estar(-mos) no interior de um avião.

E surgem assim questões, às quais dificilmente obterei resposta: Será a forma como o gaijin vê o Japão coincidente, de facto, com a forma como este se vê a si? Estará deveras um povo tão uniformemente ciente dos seus enigmas quanto alguém que lhe é alheio?
E serão os problemas da sua principal metrópole, os mesmos de todo um país?

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Interior Design
de Michel Gondry
36 minutos

Segmento de abertura, sem pouco a acrescentar, Interior Design descreve a invulgar transformação de Hiroko, uma jovem que, com o seu namorado e aspirante a realizador Akira, se instala temporariamente no claustrofóbico apartamento de uma amiga na capital, enquanto procuram mudar-se para uma nova habitação.

É o ponto de partida para uma jornada de mutação na sua existência, envolta em caricatas situações que pisam solo surrealista e roçam o conceito kawaii, numa cidade que põe à prova resistência e a adaptação do casal.

Algo que é para ele é de fácil domínio, vencendo a cidade, é para ela uma aparente impossibilidade, ao se ver invariáveis em fracassos, consequentes de um fatalismo urbano, por vezes irreparável. Por isso é, Interior Design, das três fracções de Tokyo!, a que mais faz proveito da cidade a fim de determinar o progresso do enredo, tendo em conta que, em suma, é o peso da metrópole que delibera as acções e as razões dos seus habitantes, ou, nesta eventualidade, dos seus personagens. Como questiona o trailer para o filme:

Do we shape cities?
Or do cities shape us?

Para a jovem, é a cidade que a molda, a mesma que retira quaisquer expectações para uma futura vida, alenta um novo modo de a suportar, sujeitando-a a uma estranha metamorfose: A passagem do animado para o inanimado, do inútil para o imprescindível.

Um modo absurdo de decretar que, como titula o filmezinho de Joaquim Leitão, “a esperança está onde menos se espera”. Testemunho que nem sempre funciona em cinema.

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Merde
de Léos Carax
38 minutos

O mais anárquico dos segmentos, mas o único capaz de uma transcendência. Poético, selvagem. Assim se apresenta este kaiju eiga, analítico aos tempos que correm, mas escorado em referências do passado.

“Posso dizer que o Merde sou eu. Mas ele cresceu também nestes tempos. Ele diz que não gosta das pessoas mas ama a vida. O que significa isso, e será que é mesmo possível? Eu quero fazer perguntas como estas a esses terroristas, esses fundamentalistas extremistas. Há ódio ali, mas é suposto haver fé e amor e deus, e também há sexualidade porque eles acham que vão foder virgens no céu. É tudo muito infantil. Eu até que compreendo.” —Léos Carax

A homónima personagem é um kaijin de cultura própria, a Criatura dos Esgotos, que submisso ao seu deus, é obrigado a estabelecer-se no subsolo japonês, de onde assomará para disseminar o caos à superfície—num plano-sequência inicial que, ainda que escoltado musicalmente pelo tema principal de Gojira, faz-se escoltado a uma outra pequena acção introdutória: a de Opele, o Mr. Hyde de Jean Renoir, no filme Le testament du Docteur Cordelier—, até ser levado a julgamento.
Logo são apontadas comparações à Al-Qaeda e ao Aum Shinrikyo, culto do qual, por ventura, Merde busca bizarras semelhanças físicas ao fundador, Shoko Asahara, de um olho, aparentemente, cego.

Tencionando uma afinidade entre Charlot e um Mr. Hyde sem Dr. Jekyl, este ser, estranho a tudo o que o rodeia, torna a comparação a ambas referências num antónimo, ao falhar um lado humano ao personagem, comutado pelo primitivismo da sua essência. Por outras palavras, tudo em Merde é rude, infantil, e embora inocente, não deixa de ser desumano.

São os seus modos aliados aos seus motivos fundamentalistas que permutam a evolução da sua persona infantil e, até, primitiva, que culmina em todas as suas linguagens corporal, verbal e gestual, onde em auditório, o seu racismo, que entranhado na pele suja deleita igualmente a xenofobia nipónica, é finalmente anunciado. O suficiente para a sua execução: um enforcamento ao gosto japonês, de uma formalidade que remota a Ôshima em Koshikei, 1968.

E sem que este morra, proclama:

— O céu envelheceu.

Possível menção do poeta chinês Li He, pobremente por mim traduzida:

“O céu é sempre o mesmo, o sol nasce pela manhã põe-se à noite, e nunca envelhecerá. Se o céu conhecer o amor e tiver amor, também envelhecerá tal como um ser humano.”

Sucintamente, este ambíguo e intrincado segmento deixa, com as suas imensas referências e vários lugares comuns caracteristicamente japoneses, múltiplas vias de interpretação e apreciação, nunca sendo directo, ainda que sempre frontal. O que se leva deste, é um dos mais belos exemplos de misantropia em película: O ódio é o monstro, e o monstro somos todos nós.

Filme maldito, filme-catarse. Uma obra maior do cinema da passada década, que prova o amor de um poeta pela sua arte, injustamente mal-amada.

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Shanking Tokyo
de Bong Joon-ho
30 minutos

Na terceira e última repartição, o renascimento de um hikikomori, forma especificamente japonesa para o fenómeno da agorafobia. Outro forte apelo à humanidade, ainda que desta vez, falte o cinema e o impacto do segmento anterior.

Ainda assim, há um deslumbramento pela luz, uma quase-contemplação, que induz a doce interpretação da analogia luz-como-vida. Aqui, a luz é, formal e simbolicamente, o próprio mundo exterior aos olhos do protagonista, do qual se insulara, em melancolia, no seu lar durante anos.

Todavia, a barreira que aparta o mundo do seu círculo fechado, é abruptamente quebrada, ao se apaixonar por uma entregadora de pizzas. Alentado a reavê-la, o anónimo personagem enfrenta agora a luz à superfície da esfera onde se refugiara. Luz essa que repudiava, que temia, luz essa que é uma realidade que desconhecia e ignorara, alienado, e que agora reencontra, sacudido pelo amor e um outro elemento, o terramoto. Ambos formam uma sólida comparação de factor catalisador do homem, daí o título.

Numa afável mensagem, tudo vai culminar numa (possível) Tóquio futura onde as máquinas já se confundem com os humanos e os seus papéis são repartidos. Temática diversas vezes explorada, especialmente ligada à desmedida “contribuição” japonesa neste sector, em nome de uma aspirada evolução. E a passos largos caminhamos, efectivamente, para uma evolução, puramente tecnológica, da qual pouco ou nada iremos alguma vez beneficiar, tornando-se mais num agente de regressão à nossa perca condição, que passo a passo nos declina a um maior distanciamento, a uma maior solidão.

É preciso que algo abale a humanidade para que ela se acautele.
Talvez o amor resulte, mas não um terramoto.