Entre os Dedos
de Tiago Guedes e Frederico Serra
Portugal/Brasil, 2008, Preto e branco, 100 minutos
Aparte um raro desejo de neutralidade e não será mais que um exemplo melhor do ignóbil repertório nacional de cinema relativo à pobreza em subúrbios lisboetas, i.e. Zona J, A Esperança Está Onde Menos se Espera, etc.: mantém-se os lugares-comuns e os preconceitos, talvez inconscientes, de uma certa realidade nunca presente nos exemplos referidos. Esta é a realidade televisiva cuja fuga se ficou pela concepção.
Tão pouco o seu neo-realismo, que todavia vive de alguns grandes momentos de uma câmara cassavetiana a negro, iliba os excessos e a incompetência da dupla Guedes/Serra em fazer um drama de verosímil realidade, e o culminar desse fracasso dá-se, por vezes, nos diálogos que procuram cimentar uma qualquer espécie carga dramática em falta no debilitado conjunto narrativo.
Involuntariamente moralista, também aqui os que desistem sucumbem e os que resistem sobrevivem, fugindo à sua proclamada imparcialidade, numa falsa mensagem final de esperança, após uma hora e meia de claustrofobia, que sufocara personagens —todos vítimas das suas circunstâncias— e espectador.
“Tudo está bem quando acaba bem”, diria, é hipócrita.
Arrasta-se a crueza e a crueldade em redundância e esgota-se o bom grado, o filme escorre-nos por entre os dedos, aos poucos morre o seu cinema, sem que esse último sopro de esperança o salve das trevas da condição humana, por vezes demasiado impostas, que abrigara desde o princípio.

