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White Dogde Samuel FullerEUA, 1982, Cores, 90 minutos
Por vezes, é tão difícil para um branco e dizer “preto”, quando a intenção tampouco é maliciosa. Porquê?Recordo-me vagamente de um comentário a um vídeo no YouTube: “That awkward moment when you’re white and you can’t the say the name of the song”. Essa música era Niggas in Paris, da parelha Jay-Z/Kanye West.Haverá todavia, um certo medo ético, um certo medo branco? Acredito que sim. Aventa-se o receio de represálias por um passado de escravatura e discriminação, ainda que, hoje, esse ensejo seja algo remoto, perdoado e esquecido, e pareçamos estar cada vez menos ligados, frontalmente, a essa mesma História.
Um filme que nega quaisquer possibilidades para uma sessão de entretenimento ligeiro. Uma fábula negra, silenciada na sua América, onde só passada uma década veria a luz do dia, ainda que porém, se mantenha, até hoje, menosprezado.

“Fuller esfrega os nossos narizes na nossa própria merda.” —Jim Jarmusch

No seio deste conto maldito está um pastor alemão branco, um white dog: cão treinado por racistas brancos para abater a raça negra. Descoberta a malícia, um treinador de animais negro propõe um “re-treinamento”, que se manifesta trágico.
Será o racismo natural, ou assimilado? Melhor. Será extinguível? Será o ódio ou, por que não, o medo, extinguível, treinável? Atacado o espectador, que provavelmente se verá aqui como num reflexo, White Dog suja de culpas e sangue até o (aparentemente) mais pacato dos cidadãos, não se lamenta com moralismos fáceis dum outro cinema americano, é-nos devolvida uma merecida chapada de luva branca em orações curtas e directas.
Num desfecho abrupto e pessimista, todo esse enigma racial conclui-se em tragédia. O racismo uma vez ensinado, uma vez aprendido, como uma viagem sem retorno a uma realidade desgraçada e amedrontada pela ignorância dos povos. Não se desaprende o ódio, como não se desaprende o amor.Mas em White Dog tudo não será mais que uma nefasta parábola: aqui, o cão é tão-somente uma metáfora, o anfitrião das discrepâncias, representa o mal que há no homem. Mas, o vilão, esse, é o Homem. É ele e a sua aversão que estão em causa. O cão é a vítima, como todas as que assassinou, como todas as minorias que sofreram à mão das disparidades étnicas, quais tempos de opressão nesse grande sonho que é a América.Pois —e mantém-se a pergunta—, seria este canídeo capaz de apreender o racismo autonomamente, sem a influência de terceiros?A controversa película interroga, rectifica, e relembra que somos, na essência, tão animais quanto a espécie canina. Colocam-nos em pé de igualdade, analogamente aptos para o ódio e para o medo. E não há nada de mais pungente que vermos em nós esse cão, branco, um cancro que teima em não ser vencido.

White Dog
de Samuel Fuller
EUA, 1982, Cores, 90 minutos

Um filme que nega quaisquer possibilidades para uma sessão de entretenimento ligeiro. Uma fábula negra, silenciada na sua América, onde só passada uma década veria a luz do dia, ainda que porém, se mantenha, até hoje, menosprezado.

“Fuller esfrega os nossos narizes na nossa própria merda.” —Jim Jarmusch

No seio deste conto maldito está um pastor alemão branco, um white dog: cão treinado por racistas brancos para abater a raça negra. Descoberta a malícia, um treinador de animais negro propõe um “re-treinamento”, que se manifesta trágico.

Será o racismo natural, ou assimilado? Melhor. Será extinguível? Será o ódio ou, por que não, o medo, extinguível, treinável? Atacado o espectador, que provavelmente se verá aqui como num reflexo, White Dog suja de culpas e sangue até o (aparentemente) mais pacato dos cidadãos, não se lamenta com moralismos fáceis dum outro cinema americano, é-nos devolvida uma merecida chapada de luva branca em orações curtas e directas.

Num desfecho abrupto e pessimista, todo esse enigma racial conclui-se em tragédia. O racismo uma vez ensinado, uma vez aprendido, como uma viagem sem retorno a uma realidade desgraçada e amedrontada pela ignorância dos povos. Não se desaprende o ódio, como não se desaprende o amor.
Mas em White Dog tudo não será mais que uma nefasta parábola: aqui, o cão é tão-somente uma metáfora, o anfitrião das discrepâncias, representa o mal que há no homem. Mas, o vilão, esse, é o Homem. É ele e a sua aversão que estão em causa. O cão é a vítima, como todas as que assassinou, como todas as minorias que sofreram à mão das disparidades étnicas, quais tempos de opressão nesse grande sonho que é a América.
Pois —e mantém-se a pergunta—, seria este canídeo capaz de apreender o racismo autonomamente, sem a influência de terceiros?

A controversa película interroga, rectifica, e relembra que somos, na essência, tão animais quanto a espécie canina. Colocam-nos em pé de igualdade, analogamente aptos para o ódio e para o medo. E não há nada de mais pungente que vermos em nós esse cão, branco, um cancro que teima em não ser vencido.