Vivre sa vie: Film en deuze tableaux (Viver a sua Vida)
de Jean-Luc Godard
França, 1962, Preto e branco, 85 minutos
Há uma dor que persevera oculta, na farsa de um sorriso que não se quer, ou que se quer mas não se dá, no embuste de uma infeliz felicidade presa a essa alma de que tanto se promove, o interior do “interior do exterior”, como é citado no filme.
A farsa enfim se desmascara, num elogio ao cinema, com a cena de La passion de Jeanne d’Arc, de Carl Theodor Dreyer. Esta é a eterna ponte entre o cineasta e o cinéfilo de Godard, o filme dentro do filme, vê-mo-lo como vê-mos Nana, vê-mo-lo como viu Nana, sentimo-lo como sentiu Nana, e reconhece-mos nela a Joana d’Arc (o mártir, a santa).
Não se finge mais o sufoco a que ambas é legítimo, e correm, numa perfeita colagem, as lágrimas de um sofrimento arrogado, dos rostos da Joana de Falconetti e da Nana de Karina. É a permuta de uma morte consumada, o trágico termo de uma vida e o enceto de outra, ou de mais um fim.
O ponto crucial viragem do filme, o da prostituição, o da vida e da sua condição, o do amor e da razão. Aqui começa o amargo drama. E em mais nenhuma outra peça godardiana se verá a derradeira condição melancólica e misantropa em que Nana e todos estes viventes citadinos, sem querer, devaneiam.
Facto esse que se evidencia numa outra célebre cena, a do diálogo entre Nana e o filósofo Brice Parain:
“Porque temos sempre de falar? Muitas vezes não deveríamos falar, e sim ficar em silêncio. Quanto mais se fala, menos as palavras significam. As palavras deveriam expressar apenas o que queremos dizer.”
A incompreensão. A incomunicabilidade. A inquietação.
É a aplicabilidade da solidão de espírito —que consome, de dia para dia, a rotina da protagonista—, que nela fomenta o desejo de não poder falar, de não poder comunicar. Todavia esse esforço seria, como se comprova, inútil.
Mas de nada serve viver a vida, se estivermos sós. Como outrora escrevera Bukowski:
“Estar só nunca pareceu certo. Às vezes sabia bem, mas nunca pareceu certo.”
Nana Kleinfrankenheim sabe-o, e terá um trágico destino quando, por fim, defrontar a solidão, redescobrindo o amor. E é no fatídico dissabor deste fecho que se interroga o porquê de viver, sem nunca o dar a saber, sem que Nana pudesse alguma vez viver a sua vida.

