Sobre   Arquivo   Links
Les enfants jouent à la Russie de Jean-Luc GodardFrança/Estados Unidos, 1993, Cores, 63 minutos
Elegia à ficção literária e, primordialmente, cinematográfica de proveniência russa, requiem a um cinema extinto de onde pertenciam Sergei Eisenstein, Vsevolod Pudovkin, Dziga Vertov: soviéticos, maestros incontornáveis da montagem, influências maiores de JLG, ou não fosse ele também um vivente artista dessa manipulação formática de um fazer do cinema, a ficção.
Assumem-se os trejeitos formais de Histoire(s) du cinéma, maneirismos fundados na exploração do trabalho com o vídeo e nas suas afamadas colagens, aleitando a união (ou comunhão) entre filmagens suas e arquivos fílmicos findos, justapostos na conformidade de trechos musicais que já vêm acompanhando o cineasta em propostas semelhantes. Porém, em oposição a esses trabalhos, Les enfants jouent à la Russie é profundamente conduzido por nomes maiores da literatura mundial, Liev Tolstói, Fiódor Dostoiévski e Honoré de Balzac, cujas personagens figuram este filme —Anna Karenina e as irmãs e O Idiota encarnado pelo próprio realizador, ou as insinuantes aparições dos títulos de Humilhados e Ofendidos e Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenítsin.
JLG sugere aqui a Rússia como “o” Cinema, que morreu, tomado por outro: os das “crianças” que encabeçam o panorama cinematográfico contemporâneo, os Estados Unidos, as supracitadas crianças que brincam à Rússia, do cinema faz-de-conta que proclama a realidade fictícia antes da ficção real, elucidada em diversas confrontações entre os cinemas americano e soviete, respectivamente.

“O Ocidente tenta invadir a Rússia por ser a casa da ficção, e porque o Ocidente já não sabe o que inventar.”

É este o problema que fomenta todo o filme: Contrariamente ao que é dado a aqui é dado provar, o cinema não morreu, nem tampouco o cinema é um qualquer produto de exclusividade estado unidense. Contudo é inteligível a ira que amotina o cineasta franco-suíço, ao ver pender o senso comum de um mundo cada vez menos cinéfilo, que supõe o cinema somente como Hollywood o faz.
É sugestivo o que se possa reter deste pequeno ensaio caseiro, que todavia extrai um resultado de amplíssima contemplação através da sua eterna experimentação linguística e inconfundível ironia.É mais um exemplo da guerra pessoal de JLG, a guerra fria em filme.

Les enfants jouent à la Russie
de Jean-Luc Godard
França/Estados Unidos, 1993, Cores, 63 minutos


Elegia à ficção literária e, primordialmente, cinematográfica de proveniência russa, requiem a um cinema extinto de onde pertenciam Sergei Eisenstein, Vsevolod Pudovkin, Dziga Vertov: soviéticos, maestros incontornáveis da montagem, influências maiores de JLG, ou não fosse ele também um vivente artista dessa manipulação formática de um fazer do cinema, a ficção.

Assumem-se os trejeitos formais de Histoire(s) du cinéma, maneirismos fundados na exploração do trabalho com o vídeo e nas suas afamadas colagens, aleitando a união (ou comunhão) entre filmagens suas e arquivos fílmicos findos, justapostos na conformidade de trechos musicais que já vêm acompanhando o cineasta em propostas semelhantes. Porém, em oposição a esses trabalhos, Les enfants jouent à la Russie é profundamente conduzido por nomes maiores da literatura mundial, Liev Tolstói, Fiódor Dostoiévski e Honoré de Balzac, cujas personagens figuram este filme —Anna Karenina e as irmãs e O Idiota encarnado pelo próprio realizador, ou as insinuantes aparições dos títulos de Humilhados e Ofendidos e Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenítsin.

JLG sugere aqui a Rússia como “o” Cinema, que morreu, tomado por outro: os das “crianças” que encabeçam o panorama cinematográfico contemporâneo, os Estados Unidos, as supracitadas crianças que brincam à Rússia, do cinema faz-de-conta que proclama a realidade fictícia antes da ficção real, elucidada em diversas confrontações entre os cinemas americano e soviete, respectivamente.

“O Ocidente tenta invadir a Rússia por ser a casa da ficção, e porque o Ocidente já não sabe o que inventar.”

É este o problema que fomenta todo o filme: Contrariamente ao que é dado a aqui é dado provar, o cinema não morreu, nem tampouco o cinema é um qualquer produto de exclusividade estado unidense. Contudo é inteligível a ira que amotina o cineasta franco-suíço, ao ver pender o senso comum de um mundo cada vez menos cinéfilo, que supõe o cinema somente como Hollywood o faz.

É sugestivo o que se possa reter deste pequeno ensaio caseiro, que todavia extrai um resultado de amplíssima contemplação através da sua eterna experimentação linguística e inconfundível ironia.
É mais um exemplo da guerra pessoal de JLG, a guerra fria em filme.