Week-end (Fim-de-Semana)
de Jean-Luc Godard
França/Itália, 1967, Cores, 105 minutos
Sinfonia pós-apocalíptica que ditaria o fim da Nouvelle vague, um presságio para o Maio de 68, algo que igualmente sucedera com La chinoise, num registo mais frontal mas, ainda assim, mais contido. O expoente máximo da expressão godardiana que vinha sendo erigida sete anos antes, aquando da sua longa-metragem de estreia, À bout de souffle, ainda que a sua forma autêntica, que aqui manifesta uma maior solidez, tenha somente surgido com Le mépris.
Todas as componentes que anteriormente fizeram parte do espectro do cinema de Godard, ganham contornos de avassaladora astúcia, ditando um dos maiores exemplos da sua genialidade criativa, seja pela via da sátira, da ironia, ou da cinefilia, eternamente presente.
De igual modo, vê-se em Raoul Coutard o, até então, seu maior desempenho enquanto cinematógrafo, empregando a estética da Pop art aliada ao cariz naturalista do quadro bucólico que atravessa larga parte do filme. Logo pelo aspecto visual, denota-se o exotismo nesta obra.
No ambiente onírico que envolta a fita, coligado à, por vezes, bizarra compilação musical, desponta a pertinência formal da obra. Ora são as metáforas incessantes, ora são os sugestivos intertítulos, ora é violência caricatural, ora é a seriedade que se oculta no humor caótico.
Tenha-se em conta o leque de personagens. Não há heróis, nem mesmo os protagonistas, os vis sujeitos que representam a classe burguesa, símbolos da podridão humana que nesta análise atroz à sua época se manifesta, arrastados numa viagem de fim-de-semana para fora da civilização, em seguimento de meia dúzia de planos-sequência, ilustrados pelas caricatas situações e personagens —lembre-se André Bálsamo, o “Anjo Exterminador”, o messias— que, passo a passo, nos conduzem para o terror e o caos da civilização ocidental, onde a extrema crueldade humana dita o fim dos tempos modernos, de regresso à barbárie.
Presente está a frontalidade do terrorismo feroz mas justiceiro, na declaração da libertação dos oprimidos povos africanos e árabes, que empregam Lewis H. Morgan, Karl Marx e Friedrich Engels à mensagem anti-burguesa-capitalista-ocidental, e sobretudo anti-América, devolvendo o dinamismo político que se prescrevia a um filme que perigosamente ainda pressente, inteiro, o estado dos tempos que correm.

